Há quem diz amar o inverno, e eu digo que estar confundindo amar com suportar. Pode até ser que ame mesmo, aquele inverno mais ou menos que temos no Brasil, pois este daqui de fora, no mínimo, se suporta. Há quem diz também que no inverno as pessoas ficam mais lindas, mais elegantes. Tudo mentira, ilusão.
A pele resseca, o cabelo eletriza, o corpo dá choque, o nariz fica vermelho e escorre como se você estivesse gripada, os olhos lacrimejam e os lábios, não há batom que os façam permanecer na cor. Tende a manter-se sempre no roxo, de frio. Experimente tirar a touca da cabeça sem passar pelo espelho. Ah, quer saber o que acontece? O cabelo fica tal qual um porco espinho assustado. E os choquinhos inesperados que se ganha a toda hora! Um desperdício de energia... Um dia desses encontrei uma conhecida no metrô e ao cumprimentarmos recebemos uma descarga elétrica tão forte, que o grito saiu instantaneamente. Rimos muito. Aliás, todos em nossa volta riram. Mico!
Não, o inverno não é uma estação adorável. Experimente se agasalhar e se arrumar bem bonita para passear num shopping center. Em menos de dez minutos, você vai parecer uma arara de pendurar roupas: casaco num braço, cachecol no outro, luvas e toucas ocupando suas mãos e o suor descendo pelas pernas porque infelizmente, você que ama o inverno, não pode tirar a ceroula que está por baixo do jeans e passear com ela pendurada pelos braços.
Não, o inverno não é uma estação adorável. Ninguém espera a chegada do inverno como se espera a chegada do verão. Pro verão, você cuida do corpo, escolhe a praia pra curtir, sonha com os sucos frescos das barracas, escolhe aonde vai passear, enfim... Pro inverno, você descuida do corpo, afinal, vai passar seis meses coberto mesmo, planeja passar na farmácia para escolher as melhores vitaminas pra tomar, planeja como hibernar, se tomando chá ou comendo chocolate, enfim, pode até ser que o inverno seja adorável para quem reconhece nele um lado positivo, mas te garanto que causa revolta para quem considera apenas o seu lado mais forte, o negativo. Será que é o meu caso? Pode ser. Mas peraí, acho que a neve pode ser a parte positiva e adorável do inverno, mas mesmo assim, depende onde ela cai.
Quando ela cai, é lindo e causa melancolia, euforia e charme. Isso é fato. Tanto é, que nos impulsiona a sair de casa mais feliz para enfrentar a rotina lá de fora. A minha gente, lá do meu nordeste brasileiro, que adora o inverno, às vezes me pergunta se eu saio de casa nessa temporada de "pólo norte europeu" e eu respondo que a vida não pára só porque Viena esfriou.
A criançada quer queira quer não, precisa sair pra estudar...
As donas de casa precisam sair para comprar e nem sempre são em lojas de grife. As compras que falo, são as de supermercado mesmo, essas que nos fazem estar sempre carregadas de sacolas. "Sério? Mas por que não vão de carro?" Porque aqui, quem mora dentro das cidades, geralmente não pega carro pra quase nada. Faz tudo a pé. Com isso ganhamos algumas dores nas costas, mas perdemos muitas calorias. E com o tempo as dores somem e os músculos se fortalecem. Vale a pena!
A vida não pára porque Viena esfriou: o cachorro precisa sair pra passear, o executivo sair pra trabalhar, os garis têm muita neve pra limpar e enfim, a vida precisa continuar.
Se pensar muito não sai de casa. Por isso é melhor agir rápido, no impulso. Às oito da manhã coloco roupas e mais roupas e mais roupas e pego o rumo da academia. Ao atravessar o parque, vejo as pegadas na neve denunciando que eu não sou a única a passar àquela hora por ali, e isso me encoraja.
A paisagem a minha frente é fria, linda e solitária. Mas continuo andando e estalando o gelo com as minhas pisadas. Os termômetros marcam de - 07 a - 13 -..., mas e daí? A vida não pára só porque Viena esfriou.
É, esfriou mesmo. Noto pelo meu nariz anestesiado, pelo os dedos dormentes e pelo os olhos que lacrimejam, não de choro, mas pela sacanagem dessa natureza. O sol não aquece, mas aparece refletindo o seu brilho no lago congelado do parque. O canal também cedeu e se deixou congelar.


Os canais, os rios, os lagos, todos cederam e congelaram, mas eu não cedo e finalmente chego à academia para aquecer meu corpo gelado. A recepcionista comenta: "zu kalt, frau Matias"? Que pergunta! Claro que estar frio. É, o inverno também nos deixa impacientes.Tento pegar meu cartão de entrada para entregá-la, mas os dedos dormentes atrapalham a operação. Vou pro vestiário onde encontro por lá algumas peladonas despudoradas, de bunda pra cima, colocando suas meias, já para irem embora. Devagar vou fazendo o meu streeptese: tiro luva, touca, cachecol, casaco, pulôver, blusa fina e "camiseta térmica". Em seguida tiro as botas, o jeans, a meia calça de lã grossa, a meia que vai até o joelho, e a meia curta, essa fica. Coloco a roupa de ginástica e mando ver. Terminado o sacrifício, tiro a roupa de ginástica, que por mais que eu tentasse, não consegui fazer suar. Recoloco todas as recém tiradas e retorno ao freezer. E já que estou rua, para evitar sair novamente, passo em algum lugar para comprar alguma coisa, que com certeza está faltando em casa.
Assim, mais uma vez chego carregada de sacolas. E começo a tirar tudo de novo.

De dentro da minha casa quentinha respiro aliviada. Até vale a pena beber uma coca que deixei na varanda pra gelar. Ups!!!! Não gelou. Congelou. Vou no chá quente mesmo.
É, a vida não pára só porque Viena congelou. Criança adora neve e, "na terra de sapo de cócoras com ele". Então, vamos ao parque brincar na neve. Fazer o quê?

Não, as pessoas não ficam mais bonitas e elegantes no inverno. É tudo ilusão.
E o corpo adormece e avisa que é hora de voltar pra casa...
A neve não é mesmo adorável? Repito: depende onde ela cai. Se for na cidade, olha que meleca que temos que enfrentar até que ela se derreta. Você consegue imaginar como ficam as lojas, as entradas dos prédios, da sua casa? Sim. Claro que consegue.
Ela é linda mesmo, principalmente se for vista da janela da minha casa quentinha.
VOLTO NA PRIMAVERA.